rivalidade aborrecida
Em que uma quarentona vê a série do momento, mas sem titilação. Inclui ainda funerais, vestidos, mas não aquele, equivalências à medida e uma banquinha para o recrutamento de jovens fascistas.
Esta semana passei muitas horas acordada a meio da noite, invariavelmente a ver o termómetro subir, a grande velocidade, ou descer, muito devagarinho. Podia tê-las usado de muitas formas mais produtivas, mas no meu estado grogue de sono, decidi seguir a recomendação da Ângela Vilhena e ver a série do momento: a história de amor entre dois jogadores de hóquei de equipas rivais.
Infelizmente, não funcionou para mim.
Ah,… são crianças?!
Provavelmente nunca recuperei do facto, provável mas inesperado para mim, de a série ser protagonizada por crianças. Enfim, o problema nem é a série, eu é que não estava mentalmente preparada para os famosos que nos apresentam como sex symbols começarem a ter idade para ser nossos filhos. O seu ano de nascimento (fui ver!) começava por “2”.
Sei que os homens resolvem isto melhor e que não costumam sentir dificuldade em sentir-se atraídos por sex symbols de 22 anos. Nós, claro, também os ajudamos: tentamos parecer sex symbols com 22 anos desde os 14 e até aos 35. No limite, somos sem idade - o produto é o mesmo, em diferentes estádios de frescura, desde que se apresenta ao público até ao seu ocaso.
Quero frisar aqui, até por justiça histórica, que não tenho nada contra homens mais jovens per se1. Até acho algum encanto ao ímpeto da imaturidade, como se fosse só uma desistência que ainda não aconteceu. Mesmo o famoso “durar pouco tempo”, outra das falhas mais apontadas aos amantes jovens, não me aborrece à partida - eu tenho internet-self-diagnosed-ADHD, a única coisa que gostava que durasse mais tempo no meio das minhas pernas é o tecido das calças de ganga.
Mas, seja por desajustamento geracional, instinto maternal ou depressão de meia idade, dei por mim a olhar para aqueles rapazinhos e não fez clique nenhum. Ou melhor, nenhum é exagero. Tive pena deles e do seu sofrimento. Se pedissem com jeitinho, fazia-lhes um leitinho com Ovomaltine e dava-lhes bons conselhos.
Sobre as vantagens do ácido salicílico e dos retinóides, no caso de um deles. E sobre relações amorosas, red flags e homens a evitar, no caso do outro.
Enfim, o que precisassem antes de voltarem para o mundo, prontos a voltar a partir o seu coração como se fosse um órgão infinitamente autoreparável.
50 shades of a treta do costume
Acresce, por fim, e já que falamos em red flags, que o derretimento progressivo mas inevitável do coração traumatizado de homens emocionalmente indisponíveis, de qualquer idade, é uma história que já não me comove.
Deixei de dar para esse peditório ali mais ou menos depois do terceiro romance Harlequim. Não interessa se são jovens ou velhos, se são órfãos, se o seu papá é malvado, se as suas nádegas são simétricas ou se têm contas bancárias infinitas.
É toda uma narrativa tóxica: a do homem que nos trata mal e nos faz mendigar sexo agressivo e desconectado, mas só porque ainda não conseguimos repará-lo.
É nesta dinâmica que se nota que, mesmo sendo protagonizada de forma muito gráfica por dois homens gays, aquela é uma história para gajas: o Shane Hollander, a mendigar afecto de um rapaz que manipula o seu desejo, o trata mal e só consegue abrir o seu coração no fim da linha e em estrangeiro, somos nós.
Shane, filhinho, deixa-te disso, que ainda és novo. Tratar bem as pessoas à sua volta, e especialmente o seu parceiro ou parceira, é uma espécie de ponto zero, requisito mínimo absoluto num namorado. Tenta antes a tua sorte com o senhor dos smoothies, que vais melhor servido.
Penso eu, racionalmente.
E a minha titilação acata, que é uma rapariga obediente.
Breviário
Outras ideias variadas para todos os gostos2
Se a Islândia entrar para a União Europeia, exijo o direito de ir de Erasmus outra vez.
A Carolina não foi a um funeral, como eu que também falhei tantos. Mas o texto dela tem Portugal inteiro dentro. Ou pelo menos: a aldeia dela é quase a minha aldeia. E ela é filha como tantas de nós somos filhas também.
Esta semana terminei The Correspondent, de longe o livro mais badalado no meu canto da internet. Como é que eu hei-de dizer isto? Era um livro muito simpático, gostei de o ler e não dei o meu tempo por mal empregue. Mas não era, pelo menos para mim, a obra-prima que apregoaram por aí. Lembrou-me Pachinko, outro livro ainda hoje muito celebrado a que eu daria as mesmas três estrelas, com sorte três estrelas e meia.
Dei por mim a desejar que a votação do pacote laboral demorasse, só para manter esta tranquilidade optimista pós-presidenciais. Eu! Isto realmente eu podia mesmo bem ser uma burguesinha do sistema, os senhores é que não me deixam.
(a propósito deste “não me deixam”, quero deixar aqui o registo de que isto aconteceu mesmo: “O primeiro-ministro foi ainda mais longe, estabelecendo um paralelismo entre a posição da CGTP e a do Chega, acusando a central e o partido populista de dizerem querer “rasgar o conteúdo normativo” da proposta laboral. “Muitas vezes, diz-se, bem, que os extremos se tocam e, neste caso concreto, é que nem uma luva. É que nem uma luva”, asseverou.”
É sempre bom quando eles deixam de disfarçar.)Por falar em António José Seguro, que injustiça que se tenha discutido tanto o vestido da primeira-dama-não-primeira-dama quando o da filha era absolutamente perfeito. Pela frente, por trás, quieto e em movimento.
Ainda bem que está esgotado no meu tamanho, senão cancelava já o débito direto da prestação da casa por dois meses.De vez em quando ainda me surpreendo - acho bizarro que o Chega tenha um stand na Futurália, mas tê-lo-ia aceitado com base no facto, igualmente bizarro, as outras juventudes partidárias também lá estarem. Enfim, de certa forma, pelo menos no caso de algumas delas, são realmente uma possibilidade de carreira. Mas é inacreditável que sejam permitidas as mensagens que a notícia relata (link 🎁).
Parecendo que não, “fascista” não é uma escolha profissional igual às outras e a repetição do “isto não é o Bangladesh” ainda devia fazer soar os alarmes.
Se não da organização, para quem o dinheiro deve ser todo igual, pelo menos das universidades participantes.
Um bom motivo, se vos estava a faltar, para assinar esta petição e tornar crime o que devia ser crime.
Enfim, nada contra homens mais jovens em abstracto até chegar a esta geração de diplomados da Numeiro Business School. Já estive mais longe de acender uma velinha a Santa Vilgeforte para que me converta as filhas todas ao lesbianismo.
O meu tio padre, que na verdade era o meu tio-avô, lia todos os dias o Breviário, uma espécie de almanaque diário de oração, reflexão e estudo a que os padres estão, salvo erro, obrigados. A palavra surgiu-me hoje, de sopetão, como é próprio da saudade, e ocorreu-me transplantá-la para aqui.



Eu adorei, lembrou-me pessoas muito próximas que ainda não são completamente assumidas e a quem desejo muito um final feliz. Gostei que, no fim, não houvesse drama, nem cobranças. Mas sei que sou completamente fácil para histórias românticas, até os filmes de Natal da foxlife vão se estiver no mood.
Em minha defesa, no livro eles nasceram em 93. 🫣