2025
o texto do costume, mas agora com leitores
Quando escrevi os balanços de 2023 e 2024, o Substack era para mim acima de tudo um repositório. Escrevi para minha memória futura e guardei e publiquei, salvo erro, sem contar nada a ninguém.
Que estranho voltar aqui um ano depois e escrever com leitores!
Comecemos mesmo por aí: em janeiro de 2025, já não sei por que impulso, continuei simplesmente a escrever no Substack - este foi o meu primeiro texto. Foi, de longe, a melhor coisa que fiz por mim própria no último ano. Falhei muitas vezes e até tirei um mês inteiro de férias, mas continuar a escrever aqui e dar por mim subitamente com leitores e subscritores, a maior parte dos quais não conheço, foi extremamente recompensador.
Mas não foi só isso. À boleia de começar a escrever aqui e da lista de Substacks portugueses, encontrei muito mais: um conjunto de pessoas que gosto de ler e de seguir e que enriqueceu genuinamente a minha vida. Parece estranho que uma plataforma tecnológica tenha marcado tanto o meu ano, mas foi exatamente o que aconteceu.
Janeiro
De acordo com o Google Photos, o meu fiel ajudante de memória desde que deixei de partilhar a minha vida nas redes sociais, em janeiro de 2025 só aconteceu mais uma coisa de relevância: comprei por engano uma capa para um telefone Galaxy S22+. Ainda a devo ter algures, se alguém a quiser, por favor diga.
Bem, agora que falam nisso, foi também o mês em que os americanos reelegeram Donald Trump, com as consequências que se conhecem.
Fevereiro
Em fevereiro fui a um concerto do Norberto Lobo, assustei-me a posteriori com um terramoto que não senti e levei as crianças a comer gelados no fim da escola, num dia de chuva. É importante educarmos as crianças para a importância de continuar a comer gelados, mesmo quando está frio lá fora. De outra forma, como posso ter esperança de que abra uma boa gelataria no meu bairro?
Fevereiro é também o mês do Carnaval: a filha mais velha vestiu-se de Hermione, a do meio quis voltar a levar a nossa máquina de doces feita de cartão, a mais nova levou para a escola um fato herdado das irmãs, que não sei se chegou a vestir, e eu fui para o trabalho disfarçada de abelha.
Não é extraordinário como a vida dá tantas voltas? Nunca festejei muito o Carnaval, mas aqui estou eu, para registo futuro: compro fatos de Carnaval e de Halloween para as filhas e até me mascaro em conjunto com os meus colegas.
(para ser completamente justa e não me tomarem por mais corajosa do que sou, é preciso dizer que o resto do disfarce consistia numas luvas às riscas, numas meias idem aspas e num vestido preto de todos os dias).
Também foi em fevereiro que comecei a escrever no Largo, onde também devo ter falhado mais semanas do que as que cumpri. Mas foi bom escrever com outras pessoas e, acima de tudo, ler mais vezes pessoas que já gostava de ler. Não faço promessas (nem no Largo nem aqui), mas quero muito emendar-me e tornar-me mais regular.
Começou o segundo semestre, que foi largamente um semestre realizado, em que gostei de dar aulas e senti que os alunos aprenderam.
Março
Em março fomos a Mora almoçar e fazer passaportes para a viagem improvável, celebrámos incontáveis aniversários (toda a minha família faz anos em março) e vimos cair o primeiro governo Montenegro, naquilo que hoje reconhecemos facilmente como uma armadilha mal gerida, mas na altura pareceu inevitável.
Emocionalmente, foi o início de uma primavera difícil, em que chorei mais do que ri, numa fase que acabei por ultrapassar, provavelmente sem lhe dar o tratamento que merecia.
Abril
Em abril andámos atentas ao início da primavera e festejámos o segundo aniversário da Maria com bolo de chocolate, abraços e beijinhos. As minhas filhas são todas muito especiais, mas depois de conhecer este nosso último raio de sol, é tão estranho pensar que tivemos dúvidas sobre ter uma terceira criança.
Aproveitámos as obras na casa de banho e fomos ao Minho nas férias da Páscoa, onde fomos contra todas as probabilidades recompensados com neve nas montanhas.
Por fim, trabalhei alguns dias num projeto pessoal que preciso de concluir com urgência, mas que estou sempre a protelar por falta de entusiasmo e fui a um evento muito giro organizado por alunos na universidade.
Tudo isto antes do apagão, o primeiro vislumbre de que este seria um ano com desafios profissionais atípicos.
Maio
Em maio, fomos votar, com os resultados conhecidos. O país continuou a virar à Direita mas, acima de tudo, a Direita continuou a virar à Direita.
Montenegro, que um dia achei demasiado amorfo para merecer a minha indignação, continuou a revelar-se, o PSD cavalgou desabridamente a onda xenófoba que permitiu o crescimento do Chega e a IL perdeu qualquer razão de ser perante um pacote laboral que vai para além dos seus sonhos mais molhados.
Politicamente, foi um ano negro.
A galeria de fotografias diz ainda que foi em maio que a minha filha foi pela primeira vez dormir fora em viagem de turma.
Provavelmente aconteceram muitas mais coisas importantes, mas como não as fotografei, parece que não aconteceram. O tempora, o mores, etc., etc.
Junho
Junho foi um mês de despedidas: a filha do meio deixou a Pré-Primária, a caminho do 1º ano, e a filha mais velha despediu-se da sua turma e da sua professora.
Voltei à Biblioteca Nacional, para ler correspondência apreendida pela PIDE. Que estranho ler cartas que os próprios não receberam!
Voltei também aos Santos Populares, não fossem as raparigas crescer em Lisboa sem saber o que isso é. Foi pouco e curtinho, mas soube bem. Fiquei com saudades de Alfama e daquelas semanas que antecediam o dia 13, em que a festa já estava montada mas parecia ser só para o bairro.
Julho
Em julho a minha irmã emigrada voltou a Portugal, uma das melhores notícias do ano. Ainda me custa a acreditar que tenha regressado.
A minha outra irmã acabou o curso com uma média escandalosa, que lhe permitiu escolher o mestrado tranquila e voltar também a Lisboa a tempo inteiro.
É tão bom tê-las às duas de volta!
Comprei uns óculos novos, com os resultados dúbios que se conhecem, e fui à festa de fim de ano da creche, que foi muito mais gira do que estava à espera.
Depois do fim das aulas, as crianças foram passar a tradicional semana em Sesimbra com o avô, a comer o melhor peixe do mundo e a repor os níveis de vitamina D. Sorte a delas, porque só voltámos à praia uma única vez nesse verão, na outra ponta do mundo.
De acordo com uma descoberta muito recente, julho foi também o mês em que o Beira Gare encerrou as portas de forma definitiva, sem aviso prévio e sem direito à comoção que merecia. Não é o primeiro sítio a fechar as portas nesta cidade para dar lugar a um hotel, e não será o último, mas fiquei genuinamente triste por saber do seu encerramento.
Agosto
Agosto foi o mês da viagem improvável, que tenho de registar com urgência, sob pena de me esquecer. Fica de fora, adiada mas não esquecida.
Setembro
Em setembro, a Rosa começou a escola! Forrei os livros ao serão (sim, sou dessas), fizemos um cone de cartolina cheio de surpresas, como é tradição na Alemanha, e ficámos cheios de expectativa à espera de descobrir como é que ela seria na escola. Descobrimos uma aluna com uma grande capacidade de concentração, muito aplicada e cheia de pressa de ir por ali fora.
A nossa filha mais velha começou o 4º ano, o primeiro ano em que há notas na escola dela. Fez logo diferença, não sei ainda se para melhor ou pior: as notas colocaram-lhe muita pressão, mas sinto que é bom que ela não surja só no 5º ano, a par da mudança de ciclo e do aumento da carga de trabalho e que ela já está mais pronta para essa pressão. Que, é importante sublinhar, não é nossa: tentamos que não perca aprendizagens essenciais e fazemos por apoiá-la para que as dificuldades de concentração que tem não se traduzam em perdas de auto-estima, mas de resto tentamos ser pais tranquilos, que acreditam que o meio da tabela existe por direito próprio. Dou por mim a lembrar-me muitas vezes de como achava bizarro que as minhas colegas soubessem os dias dos testes dos filhos - pois é, pois é.
Foi também o início do primeiro semestre, mas este é para mim um semestre muito tranquilo, em que tive muito poucas horas letivas - apesar do impacto negativo na minha conta bancária e de ter saudades de dar aulas, provavelmente foi pelo melhor. Nem quero imaginar o que teriam sido os meses que se seguiram se estivesse a dar aulas a tempo inteiro.
Setembro foi também o mês em que registei pela primeira vez a nossa castanha, que ainda lá continua. Fez exatamente 111 dias.
Outubro
Em outubro um acordo pôs finalmente fim à guerra em Gaza, onde o indizível aconteceu até ao último minuto (e depois dele). Todos os dias as notícias nos confirmam que não temos motivos reais para suspender a nossa indignação. Os ataques continuam, a ocupação continua, todos os dias somos informados de novas decisões assassinas e completamente arbitrárias. E ainda assim, confesso, já não olho com a mesma intensidade, permiti-me respirar de novo.
Não é justo, mas é verdade.
Outubro foi também o mês em que esteve cá a minha madrinha, que mora nos EUA e que vejo muito raramente. Tinha tantas saudades!
Foi também um mês de eleições - raramente me arrependo do sentido do meu voto, mas raramente ele teria feito diferença de forma tão radical. Tão cedo não me apanham noutra (mas, sobre isso, outro dia).
Profissionalmente foi um mês muito exigente, com dois desafios profissionais novos, um dos quais se havia de prolongar por várias semanas - se é que o podemos dar por encerrado.
Por falar em desafios exigentes: outubro foi também o mês em que dei por mim a escrever para o Público por cinco semanas, em substituição da Carmen Garcia, que teve uma filha maravilhosa antes do tempo.
Foi genuinamente difícil - era um sonho escrever na imprensa e o Público é o meu jornal, mas foi duro conciliar escrever textos tão longos com um pico de trabalho e com as crianças e, acima de tudo, muito difícil conciliar escrever opinião com o facto de ser muito fácil identificar onde trabalho e quem represento.
Escrever em nome próprio é sempre um ato de equilíbrio, claro, mas aqui no Substack corro mais riscos. Evito alguns temas mais imediatos, mas de resto acabei por assumir que este é um espaço de expressão privada e que há algumas liberdades que quero reclamar para mim.
O Público é diferente, tem um alcance muito maior, pelo que me senti obrigada a uma maior moderação do que teria desejado e escrevi de forma muito mais contida do que me seria natural.
Mas estou, claro, a queixar-me de barriga cheia: foi uma oportunidade incrível, gostei muito de ter editores, tive feedback positivo das pessoas mais inesperadas e convivo bem com a maioria dos textos que escrevi - claro que, se pudesse, reescrevia todos e cada um (há uma gralha mesmo cabeluda e um dos textos é muito aborrecido). Mas ainda os assinava a todos e ainda me sinto honrada e sortuda.
Entretanto, ganhei cá um respeitinho à Carmen Garcia e aos seus 6500 caracteres, que nem imaginam. Devo ser a sua leitora mais fiel.
Novembro
O pico de trabalho que começou em outubro teve o seu ponto alto em novembro e acabou por se tornar num daqueles momentos definidores que nunca vamos esquecer.
Foram muitos dias de trabalho intenso, durante os quais reforcei algumas convicções antigas, mas que acima de tudo foram uma imensa oportunidade de aprendizagem.
(quando estou muito assoberbada ou frustrada com o trabalho, pergunto-me muitas vezes se ainda me vou lembrar daquele problema quando estiver no meu leito de morte - a resposta é quase sempre negativa mas neste caso, assim o Alzheimer me poupe, provavelmente vou)
Novembro foi também o mês mais bonito do outono - cruzei-me muitas vezes com copas deslumbrantes e, na sequência de uma ventania de meia-noite, a minha filha mais nova ganhou um quarteirão inteiro de folhas para pisar, que ficaram por varrer durante vários dias.
Este é um daqueles privilégios incríveis da maternidade - olhar para um monte de folhas no chão, recordá-lo como uma fonte de descoberta, de diversão e de conhecimento e podermos ser nós a dizer “Olha Maria, as folhas! Fazem barulho debaixo dos nossos pés!”.
Dezembro
Dezembro foi um mês estranho, porque pela primeira vez desde que inaugurámos esta tradição não houve pequenos almoços do advento. Entre o meu estado geral de exaustão, os compromissos profissionais que tinha no primeiro domingo, as dificuldades logísticas e de espaço e a minha vontade de fazer a minha vesícula chegar ao Natal, simplesmente não foi possível. Ainda tentei combinar pelo menos um, mas acabei por assumir a derrota e decidir poupar-me - fizemos um único pequeno-almoço mais esforçado em família e nem sequer cheguei a fazer uma coroa do advento.
Foi também o primeiro ano em que não conseguimos mesmo multiplicar-nos para ir a todas as festas de Natal das escolas das miúdas. Ainda bem que elas agora têm tias prontas a ajudar e que moram em Lisboa.
Ainda em dezembro, parei no dia da greve geral e senti com alegria que havia uma aceitação bastante alargada tanto da greve geral como da condenação do pacote laboral em si.
Por fim, ainda antes do Natal, tive uma boa surpresa numa consulta no hospital: a minha operação foi considerada prioritária e deve acontecer nos próximos meses.
O Natal foi tranquilo e sem conflitos, quer familiares quer vesiculares: a dita cuja deu sinal de si, mas até ver sem dramatismos. Até as compras foram mais tranquilas que o habitual.
Mas o melhor de tudo foram as férias: talvez por estar genuinamente cansada, física, intelectual e emocionalmente, tirei mesmo partido destes dias de pausa. Até as crianças cooperaram, brincando em conjunto sozinhas e sem guerras por vários períodos, cada vez mais longos. Vejo-o chegar ao fundo do túnel, o dia em que ter várias filhas me vai começar a reduzir o trabalho e aumentar as horas de sono, em vez de ter o efeito oposto. Ainda não estamos lá, mas estou confiante de que essa altura vai chegar.
Também tirámos partido das férias para implementar dois dias de filhas únicas, uma para cada um, graças ao horário alargado da creche (coitadinha da Maria, não teve direito).
Ando há anos a dizer que quero ir ao circo no Natal, e desta vez recebi bilhetes graças a uma oferta generosa e fui realmente. Gostei tanto!
Também fui duas vezes ao cinema. Bem, ok, fui duas vezes ao cinema, mas foi para ver Wicked 2 e Zootropolis 2. É um bom resumo da minha vida cultural, não é?
Só fui ao cinema duas vezes, só vi filmes infantis e todos os filmes que vi tinham um número a seguir ao nome. É todo um programa.
Antes do fim do ano, ainda fui a um encontro de antigos alunos. Foi estranho cruzar-me de novo com tantas pessoas que já não via há tantos anos, mas posso confirmar que somos uma excelente colheita, porque estamos todos quase na mesma.
E por fim, encerramos o ano em casa, cumprindo a tradição familiar de festejar a chegada do ano novo a dormir, que é das melhores coisas que a vida tem.
Boas Intenções (recauchutadas)
O ano passado fiz três resoluções: dar prioridade à minha saúde, gritar menos com as filhas e divertir-me mais, especialmente em família ou com amigos.
Este ano tenho de fazer as mesmas: por um lado, porque foram mesmo bem esgalhadas e, por outro, porque as falhei a todas, em maior ou menor grau.
Não dei à minha saúde a prioridade que devia e continuo afincadamente a procrastinar o que não pode ser procrastinado. Não posso sequer dizer que seja tudo por falta de tempo ou recursos, nalguns casos é mesmo só falta de organização, disciplina e coragem.
Gritei menos. Não sei se mais alguém o sente ou se sou só eu que acho que sim, mas julgo que tive um bocadinho mais de auto-controlo, que antecipei melhor algumas situações que sei que mexem comigo e que decidi mais vezes escolher as minhas batalhas. Ainda assim, continuo a deparar-me com situações em que sinto alguma coisa dentro de mim a ficar furiosa e continuam todas a ser coisas corriqueiras e pouco graves. Custa-me muito admiti-lo, como imaginam. Mas estou melhor. E acho que estou no bom caminho.
Diverti-me mais, mas não foi porque tenha estado mais tempo com amigos e família. Provavelmente até passei menos tempo com amigos e família - e sei mesmo, dentro de mim, que quero e preciso de passar mais.
Dito isto, claro que houve muitas instâncias isoladas de tempos bem passados em conjunto - recordo assim espontaneamente um café no corredor de um centro comercial, uma caminhada a dois pelo centro da cidade, vários almoços de família e uma tarde a beber chá e comer chocolates num sítio improvável.
Mas, acima de tudo, “diverti-me” mais por ter criado tempo e espaço para mim: inventei uma horinha ou duas de séries, livros e escrita entre adormecer a Maria e adormecer com ela, numa manobra muito popular conhecida como revenge-bedtime-procrastination.
Funcionou? Funcionou. Mas preciso dessas horas de sono e, no próximo ano, preferia que o Substack e o Ted Lasso não tivessem tanto protagonismo no meu balanço de fim do ano.
Com o que é isto: não faço resoluções, mas reafirmo-as.
Ainda me parecem as mais importantes de todas.







Fiquei com uma curiosidade pendentes. Ignora-a se é indiscrição. És professora de quê? É um dos ofícios dos meus sonhos e fico sempre feliz de saber que alguém é professor. Feliz 2026 para ti, gosto muito de te ler neste espaço, fico feliz desta decisão de continuares aqui a escrever. Desejo toda a sorte para a tua cirurgia. No ano de 2025 uma cirurgia (que foi muito difícil de conseguir) foi a melhor coisa que me aconteceu. A saúde é mesmo o mais importante do mundo.
Boa capacidade para resumir um ano inteiro! Vai escrevendo todos os meses?
Tentei lembrar-me de onde fora a viagem improvável, a imagem é pouco inspiradora, é alguma praia de Vladivostok? Fui-me lembrando do transsiberiano e confirmei no substack. Os impérios servem entre outras coisas para drenar rigueza das periferias e arranjar com facilidade "voluntários" para carne para canhão sem afectar a vida nas grandes cidades de Moscovo e Leninegrado. Nos impérios mais pequeninos como o português embora existissem tropas africanas e em Lisboa e Porto não se desse pela guerra, as famílias e os jovens davam por isso como documentei aqui:(https://imagenscomtexto.blogspot.com/2024/04/servico-militar-obrigatorio-ha-50-anos.html)
Não vi nenhum "1" no texto remetendo para a nota de rodapé com o número 1