valdispert 500
a newsletter que antes de ser já não o era

Não tenho tempo e ando sem assunto, mas apetece-me escrever (originalmente escrevi “falar convosco”). E então pensei: e se escrevesse e pronto? Mesmo sem assunto?
Não para picar o ponto, que é uma coisa que evito e acho que se nota a milhas, mas para não deixar morrer a rotina?
Escrever também é como beijar ou andar de bicicleta: nunca se esquece, mas se deixarmos passar muito tempo, começa a parecer estranho, improvável, inatingível.
E então escrevi, olhem, ao calhas e por aí fora. Uma newsletter que é como a pescada, mas ao contrário — antes de o ser já não o era.
Ando exausta, preocupada, triste e ansiosa. Estou no fim do ano letivo e ando cheia de trabalho, daquele em que parece que estamos sempre pessoalmente em causa. Há dias em que consigo lidar com isso e avançar e às vezes até consigo escavar algum entusiasmo pelo que estou a fazer, que é genuinamente interessante. Mas é um ânimo arrancado bem lá do fundo e este fracking emocional tem um custo, não é?
Vou tomando valeriana, o Victan dos pobres, mas mantenho uma aposta secreta comigo mesma sobre se vou acabar o ano letivo deprimida ou com burnout. Claro que gostava muito de evitar as duas e perder a aposta, mas pedi dicas ao Chat GPT, as one does, e senti que ele me estava a levar demasiado a sério.
Voltei a fechar a janela muito rápido, não o quero deixar preocupado, nem imagino a quantidade de energia e água que isso gasta.Olho para o Governo, olho para o estado do mundo. Olho para o Governo, olho para o estado do mundo. Olho para o Governo… não dava para termos um governo tão flagrantemente inepto e mal-intencionado numa altura menos exigente?
(não há-de uma pessoa ficar deprimida)Um exemplo: estou em lista de espera para uma cirurgia corriqueira, daquelas que se fazem em ambulatório. Até há pouco tempo, no centro hospitalar que me vai operar, estas cirurgias faziam-se com frequência aos fins de semana, à meia-dúzia de cada vez. Mas entretanto o Governo limitou muito esse programa e mandou os hospitais cortarem na despesa, mesmo que implique abrandar consultas e cirurgias.
O resultado está à vista: neste momento sou a 30ª pessoa em espera e, em teoria, sou prioritária (imagino que as outras 29 pessoas antes de mim também). De acordo com as estatísticas de produção dos últimos 6 meses desse serviço, estimam que a minha cirurgia demore mais 17 semanas - fazem portanto menos de duas cirurgias destas por semana.
É assim que se desmantela o Serviço Nacional de Saúde e se chuta para o privado quem pode pagar: de forma cirúrgica, dolosa e absolutamente intencional.Acabei de ler Hot Milk, da Deborah Levy, sobre o qual ainda não consegui formar uma opinião, e A Swim in the Pond in the Rain, um livro de que já sabia que gostava e que terminei de ler para o Marginalia, o clube de leitura da Raquel Dias da Silva. Tem sido muito giro ler em conjunto, tentar sistematizar o que penso e depois ir ler o que a Raquel escreveu.
Entretanto, chegou finalmente o último livro da Siri Hustvedt, de que estava à espera há meses, mas em vez disso comecei a ler Lost Lambs, da Madeline Cash, As Intermitências da Morte, do Saramago e o Kitchen, da Banana Yashimoto. Nenhum me agarrou ainda, mas sinto que a culpa não é deles, são a minha atenção e envolvimento que estão difíceis de agarrar, como um sabonete molhado no banho.
(eu sei, já mais ninguém usa sabonete, mas já imaginaram a quantidade de plástico que poupavam?)Quando a minha avó ficou com Alzheimer, desistimos rapidamente de lhe dar a notícia do falecimento dos seus entes queridos — ninguém merece começar várias vezes por semana o processo de luto do zero.
A mim acontece-me o mesmo com as pessoas famosas, esqueço-me de que morreram. Esta semana já me aconteceu com o João Canijo e com a Agustina Bessa-Luís, duas mortes que é impossível que me tenham passado completamente ao lado. Felizmente neste segundo caso, ao ler a nota do João Lameira, lembrei-me da vergonha que passei com o Canijo e fui ao Google.Para acabar numa nota positiva: com a chegada do calor, chegaram os almoços de fim de semana no jardim, que são uma espécie de oásis, de trégua, de suspensão coletiva da resmunguice e da conflictualidade.
Sentamo-nos à mesa do jardim e somos felizes.
Sempre, ou quase sempre.


Um grande abraço Rita. Sei o que é sentir esse desespero com que abres esta newsletter e tenho pensado muito no meu futuro, no que quero fazer da minha vida e onde me vejo daqui a mais 31 anos. Isso levou-me a uma epifania que só concretizarei em 2027, mas só de pensar nela, como um segredo muito bem guardado que vai surpreender toda a gente, sinto-me mais leve e divertida e marota. Às vezes dou por mim a sorrir do nada quando penso o que me espera. Talvez te ajude decidires que vais fazer uma coisa que, em circunstâncias normais, talvez entendesses como arriscada, ou mesmo doida, e marcares uma data para a concretizares, sem dizeres a ninguém (vá, talvez à tua família imediata, só para garantires que estão ok com a maluquice) 🤣
Eu uso sabonete no banho ainda!