ser remediada cansa
Ao longo da minha vida, passei por níveis de vida muito diferentes, até chegar aonde estou hoje - mudou o perfil salarial, mudaram as despesas, cresceram as responsabilidades e, acima de tudo, mudou a minha atitude-base face à poupança, que passou de nice to have longínquo a obrigação conjunta.
Não quero queixar-me de barriga cheia: embora não seja muito bem paga, não há nenhum critério económico ou social válido com base no qual me pudessem chamar pobre. Daria um rim para que a pobreza em Portugal se limitasse às lamúrias de pessoas como eu, com uma vida genericamente confortável e todas as necessidades básicas asseguradas.
Para além disso, com outras escolhas de vida, algumas definitivas, outras facilmente reversíveis, podia facilmente gastar ou poupar o dobro do meu rendimento líquido disponível atualmente.
Que é como quem diz, as escolhas foram e continuam a ser minhas.
Não tenho #bodeexpiatório e não preciso de culpar ninguém.
Mas, de repente, sinto-me como se tivesse voltado aos meus vinte anos e tenho dado por mim a fazer contas de cabeça para comprar coisas pequeninas, a adiar sucessivamente uma consulta médica para o mês seguinte ou a por um suplemento caro que tenho mesmo de tomar na lista de compras futura.
E perdoem-me o papel de privilegiada queixinhas mas cansa, cansa muito.
Bolas, já não era suposto.
Em Portugal, não falamos disto em público. Por pudor, para não ofender quem passa realmente necessidades - claro. É um pudor compreensível e necessário.
Mas o pudor não explica tudo e a perda de poder de compra da classe média não é um dado irrelevante1.
Não é só por pudor que não nos queixamos - não dizemos nada porque ser pobre é uma vergonha, mas ser remediado também.
Talvez por isso, apesar de sabermos que o custo de vida aumentou muito mais do que a inflação acusa, conto pelos dedos de uma mão a quantidade de vezes que as pessoas à minha volta assumiram o óbvio - que nos últimos anos perdemos poder de compra de uma forma radical e violenta.
É um assalto à mão armada em que a vergonha fica do lado da vítima, não do criminoso - porque se me queixar do roubo, as pessoas vão descobrir que aquele dinheiro me faz falta2.
Se “a subida dos preços dos alimentos pesa mais na carteira de quem ganha menos,” e “o aumento do custo de vida está a funcionar como um mecanismo amplificador de desigualdades”, respondemos a essa amplificação com o silêncio, fazendo por ser discretos, não nos vão descobrir a careca.
Então afinal aquela mocinha, que até parecia estar bem na vida, é só mais uma remediadita? Coitadinha, isto realmente na vida só quem está lá dentro é que sabe o que vai dentro.
Mas querem saber? Neste momento específico da nossa vida colectiva, sou mesmo.
E, como não acredito que seja a única, pergunto-me genuinamente o que aconteceria se em vez de andarmos por aí envergonhados, nos indignássemos a valer.
E com isto, vou ali marcar dentista e encomendar umas embalagens de ferro, antes que o dinheiro se me eclipse da conta.
Coisinhas pequeninas que ainda não é desta que têm nome:
Crianças (crianças mesmo, não só menores) forçadas a representar-se a si mesmo em tribunal nos EUA. Anunciei a era dos palavrões, mas genuinamente só me dá vontade de chorar.
Idem para a última frase deste artigo, sobre refugiados de Gaza que foram parar de forma misteriosa à África do Sul: “Dad, we are living like the YouTube life”.Se algures no mundo existe um mercado de Natal co-organizado por um festival de heavy metal e um hospital, em que os metaleiros são incentivados a dar sangue, claro que esse mercado está em Berlim (descoberto via 20 Percent Berlin).
Um dia em que não tenha assunto, hei-de-vos escrever sobre as curiosas diferenças entre dar sangue em Portugal e dar sangue na Alemanha.Depois mais de um ano sem lhe pegar, escolhi o último mês, fértil em noitadas a trabalhar, para voltar a jogar Wordle. Que horror, para onde foi o meu cérebro?
É a versão intelectual de vermos uma fotografia antiga e descobrirmos que éramos umas giraças que desperdiçavam a sua energia mental com inseguranças injustificadas. Onde está aquela rapariga que jogava o Wordle em três línguas e nunca perdia? Ficou lá para trás, claro, com a sua cabeleira farta, a pele impecável e os braços que afinal não eram assim tão horríveis.Recentemente, cruzei-me com um post a recordar uma piadinha de S.Martinho transfóbica publicada pela Control Portugal no ano passado e lembrei-me de ir espreitar a sua comunicação por estes dias. Fiquei um bocadinho chocada, eles não costumavam ter alguma graça? Contrataram o Quim Barreiros3 como copy? Case in point: 1, 2, 3 e 4. Não é de mim, pois não?
#bodeexpiatório
Esta semana o Largo procura os seus bodes expiatórios. Vou tentar vir atualizar os links para os textos das minhas camaradas de ofício no fim de semana mas, para o caso de ser atacada por uma preguiça aguda, pelo meu sono em atraso ou por três filhas cheias de ideias, aqui ficam os links para vocês irem procurar sozinhos, que também já são crescidinhos:
A Curva
A Gata Christie
Dois Dedos de Conversa
Gralha dixit
O blog azul turquesa
Quinta da Cruz de Pedra
Em Portugal, toda a gente acha que é de classe média - os ricos, que acham que estão confortáveis mas também não ganham assim nada de especial, e os pobres, porque isso os ajuda a ver-se ao espelho e preservar a sua dignidade. Só sobram os bilionários e os miseráveis.
Já quando o ladrão festeja as suas conquistas, aplaudimos a sua boa gestão.
O Quim Barreiros é um senhor, não me entendam mal. Mas, sobre isso, outro dia.



Pensava nisto esta manhã ou olhar para o valor mensal que tenho gasto a fazer o mesmo de sempre.
Eu vivi 4 anos com uma bolsa de doutoramento de 890€ que tinha de dar para mim e para o meu filho. E estou a falar de há menos de 5 anos! Esticadinha ao máximo mas dava. Hoje isso é o salário mínimo.
Adiei muitas consultas - especialmente dentista - e passei muito tempo sem comprar nada porque era impossível. Tudo emprestado, dado ou oferecido.
E sim, perdi imenso poder compra. Vejo isso na vida que tinha há uma década atrás. E ainda assim, para o Estado estou no topo da pirâmide em matéria de impostos!
Eu sei que este post toca num assunto importante mas fiquei saudosista com a imagem da “Anita nas compras “ 🥹 e a criança que há em mim não consegue comentar mais nada .