querida, multipliquei os emigrantes
A grande substituição: o que descobri e o que suspeito sobre o voto da diáspora portuguesa no Chega.
Nestas eleições presidenciais, o voto dos emigrantes voltou a ser tema de debate um pouco por todo o lado, num tom entre a perplexidade, a indignação e uma superioridade cosmopolita que me incomoda.
Não tinha planeado falar nisto, para mim os resultados eleitorais estavam mais que digeridos, mas há dois aspectos que têm estado largamente ausentes desta discussão até agora e que me parecem incontornáveis: a mobilização da abstenção e o esforço de campanha intensivo, continuado e organizado do Chega junto das comunidades emigrantes.
Vamos começar pela primeira tese, porque julgo que os números falam por si.
A grande substituição em ação:
o Chega não mudou o sentido de voto dos emigrantes, mobilizou emigrantes novos
Em 2022, quando o Chega elegeu pela primeira vez dois deputados pelos círculos da emigração, lembro-me de pensar que essa vitória não era acidental. Tinha de implicar um esforço estratégico, coordenado, intencional.
E, reparem, era uma ideia genial: os círculos da emigração só elegem quatro deputados, mas têm taxas de abstenção altíssimas. Não era preciso mudar o sentido de voto de quem já votava, bastava mobilizar uma percentagem mínima dos mais de 90% que não o faziam. Eram aquilo a que os ingleses chamam low hanging fruit.
A mobilização dos abstencionistas é uma estratégia clássica dos partidos populistas de extrema-direita, com provas dadas em vários países. Não é por acaso: é menos provável que os abstencionistas tenham uma identidade política formada, ou pelo menos formada no sentido da lealdade a um partido. Simultaneamente, é mais provável que se sintam rejeitados ou esquecidos pelo sistema e que estejam menos envolvidos na discussão política, o que os torna mais suscetíveis a novas ideias ou informações, falsas ou verdadeiras.
Agora digo eu, e não a Ciência Política: se isto é verdade para os abstencionistas no geral, é ainda mais verdade para os abstencionistas que moram fora do país.
Infelizmente, não conheço nenhum estudo sobre as transferências de votos dos emigrantes, e especificamente sobre os emigrantes que votam no Chega. Mas os resultados eleitorais mostram duas tendências de forma muito afirmativa:
O crescimento do número de votos do Chega no estrangeiro é acompanhado de um aumento expressivo do número de votantes no estrangeiro no geral.
Estes dois gráficos acompanham a evolução do número de votos nas presidenciais: em 2021 votaram 29.153 emigrantes, em 2026, na segunda volta, votaram quase o triplo, 85.857.
Fonte: Rita Maria à moda antiga, no Excel, a partir dos resultados oficiais Esses votos adicionais não terão beneficiado só o Chega, claro: o número de votos em Seguro na 2ª volta por exemplo, considerado de forma isolada, também é maior que o número total de votantes em 2021.
Certo, mas então se o aumento do número de eleitores beneficiou os dois candidatos nestas últimas eleições, então porque é que achas que o Chega está a mobilizar a abstenção, Rita Maria?Para tirar teimas, fui analisar os resultados das Legislativas. Comecei só em 2019, para incluir já a inscrição automática de todos os cidadãos nacionais com endereço no estrangeiro.
Os resultados, a meu ver, são conclusivos: à medida que o número de votantes aumenta, o número de votos no Chega aumenta também, enquanto os votos nos partidos do arco da governação (PS+PSD) e os votos nos partidos à sua esquerda (CDU+BE+Livre) ficam quase iguais, sofrem apenas oscilações muito ligeiras.Este gráfico demonstra porque é que olhar para os resultados em termos percentuais é, neste caso, profundamente enganador: os votos na esquerda e no centro perdem expressão, mas não é porque tenham perdido eleitores - pelo contrário, até aumentaram ligeiramente1.
Claro que este gráfico não substitui um estudo mais aprofundado do voto da diáspora portuguesa no Chega, mas para mim ficou muito claro: o Chega não rouba votos aos outros partidos, mobiliza eleitores novos.
Os votos no Chega são os principais responsáveis pelo aumento do número de votos - e isto considerando apenas os votos válidos, i.e., presenciais ou enviados por via postal corretamente, com a cópia do cartão de cidadão.
Sendo que, mesmo assim, a abstenção continua elevadíssima - há uma margem de crescimento muito grande, para qualquer partido que queira investir nela.
Que é do que vamos falar a seguir.
Então e essa campanha intensiva, contínua e organizada?
Sejamos francos: ao contrário dos resultados eleitorais, que são indesmentíveis, a “campanha intensiva, contínua e organizada” é um palpite. Não defini “intensiva”, não tenho recursos para provar que é “contínua” e, quando falamos do Chega, a palavra “organizada” precisa de ser reinventada.
"Serão os emigrantes portugueses a dar-nos a vitória na segunda volta das eleições em Portugal"
É verdade que André Ventura falou muitas vezes nos emigrantes durante a campanha e esteve na Suíça para um jantar com apoiantes, mas também Gouveia e Melo e António José Seguro foram ao encontro das comunidades portuguesas, deram entrevistas a órgãos de comunicação da diáspora e anunciaram especial atenção às necessidades destas comunidades no exercício do seu mandato.
Não é na campanha oficial que o Chega se destaca, nunca foi.
O livro “Por Dentro do Chega”, que o jornalista Miguel Carvalho publicou este ano, descreve um tipo de campanha mais difícil de rastrear que os tradicionais: a criação de centenas de perfis falsos, grupos e canais nas redes sociais e em plataformas de chat, que republicam conteúdos de uns para os outros a um ritmo vertiginoso - o “Chega - Grupo Político do Canadá”, no Facebook, publicou 48 posts nas últimas 24 horas. Já o “Grupo de emigrantes apoiantes de André Ventura” publicou mais de 80.
O seu conteúdo é um bocadinho o que esperaríamos: notícias falsas, muitas imagens geradas por inteligência artificial, clips dos comentadores e influenciadores favoritos da extrema-direita, partilhas de outros grupos e canais, incluindo o “IV República” e o “Abstenção Zero”.
Mas ao contrário destes grupos abertos no Facebook, que são fáceis de encontrar e analisar, os grupos do Whatsapp e do Telegram, tal como as comunidades do Instagram, exigiriam um investimento de tempo e recursos muito maior.
A terem existido caravanas organizadas para votar organizadas pelo Chega ou pelos seus militantes e simpatizantes, como alguns rumores fazem crer, provavelmente terão sido partilhadas em circuito fechado.
Ainda assim, encontrei registo público de algumas iniciativas.
Foi notícia a ação de um restaurante francês que oferecia a viagem e o lanche a quem fosse votar. “Portugueses, vamos votar! La Lusitane à Creil disponibiliza autocarro gratuito para Paris + lanche oferecido. Domingo, dia 8. Partida às 13h. Inscrições até sexta-feira.”, diz o anúncio, que continua a estar online.
Confrontado com uma queixa do PS, o proprietário, Fernando Gomes, defendeu a vários órgãos de comunicação social que não havia qualquer indicação de voto e que tinha apenas querido ajudar outros emigrantes a exercer o seu direito cívico. E, claro, esta pode realmente ter sido só uma oferta desinteressada.
Não percebi em nenhuma das notícias que li se o autocarro acabou por partir ou não (tenho cá uma embirração com esta falta de seguimento das notícias depois de lançadas).
Mas sei que a Luísa Semedo testemunhou um autocarro de votantes quando foi votar no Consulado de Paris.
No mesmo post do Instagram, ela faz também referência a um grupo de motards que imagino que seja este, um grupo de emigrantes que foi votar nas motorizadas Zundapp Famel de um deles. Se quiserem conhecer melhor as suas preocupações, ficam melhor informados neste vídeo de José Dias Fernandes, do Chega, do que na notícia da SIC Notícias ou na da Sábado: “O Chega tem de ganhar para pôr os ciganos (…) a trabalhar (…) aquilo lá está mal, é só daqueles a mamar na cabra, como os ciganos.”
Por coincidência, este grupo de motards partilha a mesma preferência musical que esta eleitora de Zurique — uma “banda” que parece ser utilizada com frequência pelos apoiantes do Chega nos seus vídeos nas redes sociais.
Mas havia outros rumores sobre autocarros, desde logo na mesma notícia do Lusojornal sobre a “La Lusitane à Creil”:
Esta notícia é verdadeira? Não é fácil confirmar, mas encontrei-a realmente em dois perfis das redes sociais:
Este post circulou mesmo no seio da comunidade emigrante, sem alvoroço e sem ter saído cá para fora?
Parece-me muito difícil, apesar de não ter acesso aos grupos do Whatsapp e do Telegram do Chega.
Os dois perfis abertos onde o encontrei não podiam ser mais distintos: o primeiro Yusuf Turkye é provavelmente um perfil falso, com um nome no mínimo curioso. Já Urânia Pessoa Carvalho de Rodrigues é uma brasileira de nacionalidade portuguesa muito ativa nas redes sociais, uma apoiante vocal de Bolsonaro e Ventura.
Por fim, no site “InfoSuíça.com”, que fala de uma comunidade emigrante com “um elevado nível de esclarecimento político”, é relatada a amável iniciativa de Miguel Rodrigues “militante do Chega e apoiante assumido de André Ventura”, que disponibilizou um autocarro para quem quisesse ir votar.
Por confirmar fica a teoria da mobilização dos caciques locais, pessoas importantes nas comunidades que teriam influenciado o voto no Chega: o único que encontrei a fazê-lo abertamente foi o empresário César de Paço, que reconheço do livro do Miguel Carvalho como um dos financiadores do Chega.
Uma narrativa à medida: os “portugueses de segunda”
Mas publicar muito, criar centenas de perfis falsos, páginas e grupos, alimentar esta máquina infinita de reciclagem de conteúdos e chegar a pessoas com importância nas comunidades locais não chega se a mensagem não ecoar junto das pessoas.
E o Chega soube capitalizar um ressentimento muito comum nos emigrantes: a ideia de que são vistos e tratados como “portugueses de segunda”. Que são gozados, em vez de celebrados, pelas suas conquistas, que são todos avecs, novos-ricos, exibicionistas. Que podem subir na vida o que quiserem, que a gente não se deixa enganar.
E que como se isso não bastasse encontram na pátria um país sedento das suas remessas, mas que lhes paga com serviços consulares insuficientes e longínquos, uma muralha de burocracia e uma ingratidão sobranceira.
Vale a pena ler este artigo do Público, apesar de já ser de 2017.
Soube também capitalizar um ponto de honra, uma história que os emigrantes portugueses gostam de contar sobre si mesmos: a ideia de que são, ao contrário dos novos imigrantes vindos de fora da Europa, imigrantes-modelo. Que se integram, trabalham, pagam impostos. Ao contrário dos “outros”.
Quando o Chega fala de “portugueses de segunda” e garante que não é contra a imigração, mas quer imigrantes como os portugueses, que trabalham no duro e seguem as regras, sentem-se vistos.
O modelo de votação nas presidenciais, exclusivamente presencial, deu o mote para o aproveitamento deste ressentimento. O Chega repetiu até à exaustão, em todos os canais, que os partidos do sistema não queriam o voto dos emigrantes, que recusavam a sua participação, que os excluíam de propósito porque sabiam que os emigrantes não iam votar neles.
Podem ver esta narrativa repetida por exemplo aqui, numa interação de emigrantes com André Ventura. É especialmente interessante a forma como se aproveita da confusão reinante acerca da forma de votação - a melhor notícia falsa é a que tem um fundo de verdade.
O resto é apenas a repetição da cartilha habitual, mas com duas vantagens decisivas: a distância e a implementação local das ideias da extrema-direita.
Se em Ponte da Barca, no Alto Minho, há portugueses que acreditam que é necessário reforçar a vigilância para a vila “não se tornar no próximo Martim Moniz”, uma república islâmica liderada por jovens lésbicas woke, não será ainda mais fácil acreditar nisso a milhares de quilómetros de distância? E mais fácil ainda em países em que as mesmas ideias são repetidas até à exaustão há décadas? Na Suíça do SVP? Na França de Le Pen? Nos EUA de Trump?
Não quero, de todo, negar o impacto das baixas qualificações de alguns sectores da nossa diáspora, que me parece uma evidência. Mas custa-me ler, como tenho lido, que os emigrantes portugueses são todos burros, todos ignorantes ou simplesmente más pessoas.
Estas explicações simplistas e preconceituosas nunca nos levaram a lado nenhum, pois não? Para além disso, se fosse verdade, e não é, o que fazíamos, como democratas? Resignávamo-nos e esperávamos que morressem, na esperança de que sobrasse só a diáspora premium, que não nos envergonha?
Acho que as pessoas devem ser responsabilizadas pelo seu voto, pelo seu comportamento, pelo que dizem e pelo que partilham: em Lisboa, em Ponte da Barca, em Toronto e no Luxemburgo. O meu objetivo não é, de forma alguma, desculpar os emigrantes que votam em André Ventura.
Mas olhar com atenção para o Chega e para as táticas que emprega parece-me infinitamente mais útil do que insultarmo-nos uns aos outros e alimentar ressentimentos.
A única exceção é a descida dos partidos de esquerda em 2022, o ano em que António Costa conquistou a maioria absoluta.











Quando fui votar aqui em Madrid, na segunda volta, estava à porta da embaixada à espera de uma amiga e entrou um grupo de pessoas a falarem entre elas em espanhol. Não estava a prestar muita atenção até que vejo uma delas a sacar do telemóvel e a mostrar uma foto do Ventura. "É neste que temos de votar, disseram-me! Levo aqui a foto para o identificar, vejam". Ou seja, pessoas desligadas da política, que muito provavelmente são emigrantes há tantos anos que já nem falam em português, e que tiveram alguém a dizer-lhes para irem votar e em quem...
Acho que o que se passa na diáspora é parecido com o que acontece cá. Na minha cabeça, os votantes do CH dividem-se em dois grandes grupos: uma minoria vota porque acredita mesmo no projeto fascista; a maioria está a ser enganada e vota contra si própria - há ignorantes sem estudos e ignorantes com diploma. Alguns são racistas e xenófobos, outros não. Os que são, acho que é mais por ignorância do que por maldade.
Conheço gente que suspeito votar no CH porque repete a argumentação do Ventura palavra por palavra. Não são pessoas más, mas vivem fechadas nas suas preocupações do dia a dia e comparam-se sempre com quem está igual ou pior - imigrantes, vizinhos que "trabalham menos e têm mais apoios" - e sentem-se injustiçados. Já tentei conversar, sem grande sucesso. Não gosto de tratar adultos como crianças, e quando não há curiosidade nem vontade de ouvir, não adianta argumentar.
O que me enerva ainda mais são os pobres e remediados, que dependem do SNS e da escola pública, e mesmo assim votam na direita por uma espécie de status imaginário. Acham que ter um curso, uma trabalho médio com "manager" no nome da função ou uma pequena empresa os coloca noutro patamar, e o voto na direita é o selo que confirma isso. Não têm consciência política nem de classe, e essa ilusão de superioridade custa-lhes caro, só que a conta chega sempre mais tarde.
E já agora, sim, há um preconceito enorme com os nossos próprios emigrantes. É uma hipocrisia: defendemos os imigrantes cá dentro mas olhamos de lado para os portugueses lá fora. Quando emigrei, ainda que por pouco tempo, foi visto como "uma experiência internacional", mas fui explorada como qualquer outro emigrante, qualificado ou não. Quando os meus pais foram viver para Bruxelas aos 60 anos, as reações foram diferentes: condescendência ("ai, coitados, tiveram de emigrar"), preconceito ("ah, és filha de emigrantes?"), e até quem assumisse, por engano, que eram diplomatas - e aí a conversa mudava completamente de tom. Ria-me por dentro. Não são, longe disso, mas de repente já eram gente diferente.