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Avatar de Margarida Reis

Quando fui votar aqui em Madrid, na segunda volta, estava à porta da embaixada à espera de uma amiga e entrou um grupo de pessoas a falarem entre elas em espanhol. Não estava a prestar muita atenção até que vejo uma delas a sacar do telemóvel e a mostrar uma foto do Ventura. "É neste que temos de votar, disseram-me! Levo aqui a foto para o identificar, vejam". Ou seja, pessoas desligadas da política, que muito provavelmente são emigrantes há tantos anos que já nem falam em português, e que tiveram alguém a dizer-lhes para irem votar e em quem...

Avatar de Maria Luísa

Acho que o que se passa na diáspora é parecido com o que acontece cá. Na minha cabeça, os votantes do CH dividem-se em dois grandes grupos: uma minoria vota porque acredita mesmo no projeto fascista; a maioria está a ser enganada e vota contra si própria - há ignorantes sem estudos e ignorantes com diploma. Alguns são racistas e xenófobos, outros não. Os que são, acho que é mais por ignorância do que por maldade.

Conheço gente que suspeito votar no CH porque repete a argumentação do Ventura palavra por palavra. Não são pessoas más, mas vivem fechadas nas suas preocupações do dia a dia e comparam-se sempre com quem está igual ou pior - imigrantes, vizinhos que "trabalham menos e têm mais apoios" - e sentem-se injustiçados. Já tentei conversar, sem grande sucesso. Não gosto de tratar adultos como crianças, e quando não há curiosidade nem vontade de ouvir, não adianta argumentar.

O que me enerva ainda mais são os pobres e remediados, que dependem do SNS e da escola pública, e mesmo assim votam na direita por uma espécie de status imaginário. Acham que ter um curso, uma trabalho médio com "manager" no nome da função ou uma pequena empresa os coloca noutro patamar, e o voto na direita é o selo que confirma isso. Não têm consciência política nem de classe, e essa ilusão de superioridade custa-lhes caro, só que a conta chega sempre mais tarde.

E já agora, sim, há um preconceito enorme com os nossos próprios emigrantes. É uma hipocrisia: defendemos os imigrantes cá dentro mas olhamos de lado para os portugueses lá fora. Quando emigrei, ainda que por pouco tempo, foi visto como "uma experiência internacional", mas fui explorada como qualquer outro emigrante, qualificado ou não. Quando os meus pais foram viver para Bruxelas aos 60 anos, as reações foram diferentes: condescendência ("ai, coitados, tiveram de emigrar"), preconceito ("ah, és filha de emigrantes?"), e até quem assumisse, por engano, que eram diplomatas - e aí a conversa mudava completamente de tom. Ria-me por dentro. Não são, longe disso, mas de repente já eram gente diferente.

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