Pantufa digere as eleições
#pantufa
Antes que me digam que estou outra vez a torcer o tema do dia para falar do que me apetece, olhem com atenção para a cara do Pantufa:
A culpa não é minha: ele está claramente a olhar para os resultados eleitorais no tablet da Anita e a tentar digerir o que aconteceu aos partidos de esquerda. O Pantufa está como eu: precisa de arrumar as ideias.
(Pronto, pronto, desculpem. Eu não faço mais batota. Aqui vai: verão ou inverno, gosto de pantufas tipo soca Birkenstock fechada, com a parte de cima em feltro ou camurça, mas sem ser Birkenstock, que não combina com o formato da sola dos meus pés. Sinto que preciso dessa estabilidade de uma sola mesmo sola, será da velhice?
As últimas que tive eram da Zara Home e fizeram-me feliz durante vários anos. As atuais são do Lidl e acho que são ainda melhores e vão durar ainda mais.)
Esgotado o tema das pantufas, voltemos ao Pantufa e à sua expressão incrédula acima. Foi como eu fiquei, ao ver o Chega passar à frente do PS e o Bloco de Esquerda a desaparecer.
Não é que não esperasse o crescimento do Chega. Esperava. Mas estava preparada para uns chuviscos e de repente dei por mim num dilúvio (e de pantufas!)(olhem que estou quase a apagar aquilo da batota ali em cima, de tão bem que isto me está a correr).
Entretanto, para além do crescimento do ódio de que falei ontem, li alguém referir num comentário numa rede social que a clivagem esquerda/direita tinha sido substituída pela clivagem sistema/anti-sistema e fiquei a pensar nisto (infelizmente li de passagem num mural qualquer e não consigo mesmo atribuir a ideia).
Isto não é exatamente novo, sabemos que o voto anti-sistema existe, mas implica pensar no voto anti-establishment (de que já tinha falado quando disse, em jeito de premonição, que havia muito para aprender com a vitória de Trump, pena já não irmos a tempo) já não apenas como voto de protesto, mas como clivagem central1.
É fácil perceber que o PS está dentro do establishment, afinal governou Portugal durante 26 anos, 28 se contarmos o governo de Bloco Central. O contraste com o PSD é mais misterioso, afinal também esteve 21 anos no Governo (23 com o Bloco Central).
Mas já tínhamos tentado sugerir que lhe tinham colado, ao PS, uma espécie de marca tóxica.
Mas como diabo fizeram os partidos à esquerda do PS, que na verdade são os únicos a querer por realmente em causa as bases do sistema capitalista, para serem considerados parte do sistema, e não o seu oposto?
Terá sido a geringonça? Sim, provavelmente terá sido em parte a geringonça.
(mas eu mantenho que valeu a pena)
Mas acho que é mais que isso e, depois andar a marinar esta pergunta na cabeça por alguns dias, esta é a minha melhor teoria: os partidos de extrema-esquerda não são considerados anti-sistema porque “o sistema” não é o capitalismo global, nem o capitalismo à portuguesa, nem a democracia representativa.
A grande vitória ideológica da Direita é ter criado uma narrativa segundo a qual “o sistema”, esse sistema pelo qual as pessoas se sentem abandonadas, o sistema que as deixou para trás, que as ignora ou, pior ainda, as insulta ou tem vergonha delas, esse sistema é o socialismo woke.
E por isso é esse o sistema que urge combater.
O socialismo woke impôs a ditadura do politicamente correto. O socialismo woke quer que eu me cale.
O socialismo woke estragou o relacionamento entre homens e mulheres. O socialismo woke estragou as mulheres.
O socialismo woke diz que defende as mulheres, mas defende os muçulmanos, vão lá ver como é na terra deles. O socialismo woke diz que é feminista, mas só quer saber de mulheres com pénis.
O socialismo woke transformou-nos em flores de estufa.
O socialismo woke criou uma geração obcecada com a saúde mental, que agora não quer trabalhar.
O socialismo woke está a endoutrinar as nossas crianças através da ideologia de género, a sexualizá-las e a servi-las de bandeja aos pedófilos.
O socialismo woke quer tirar-nos o carro. O socialismo woke cobra 10 cêntimos por um saco de plástico. O socialismo woke estragou o prazer de comer um bife.
O socialismo woke deixa entrar os imigrantes todos, dá-lhes casa e paga-lhes subsídios sem eles terem de trabalhar. 900 euros, li na internet.
O socialismo woke diz que luta por mim, mas fica com 30% do meu salário e não me dá nada em troca. O socialismo woke não gosta de quem trabalha no duro, o socialismo woke é contra a ambição e o empenho. O socialismo woke nunca trabalhou.
O socialismo woke está preocupado com Gaza mas não quer saber dos sem-abrigo.
O socialismo woke despreza as igrejas mas deixa construir mesquitas.
O socialismo woke chama-nos somos racistas, misóginos e ignorantes. O socialismo woke põe em causa as nossas tradições, o orgulho na nossa História, a nossa identidade.
O socialismo Woke põe-nos em causa.
A ser assim, faria sentido que tivesse sido o BE, o primeiro partido a fazer bandeira da política identitária, a primeira vítima da política anti-sistema, que o PCP tenha sido muito menos afectado e que Mariana Mortágua seja a encarnação de todos os males.
A carapuça pantufa encaixa-lhe na perfeição.
Ainda há muito para perceber sobre o que aconteceu nestas eleições (estes resultados do Pedro Magalhães, por exemplo, são muitíssimo interessantes) mas, como dizia ontem o Rui Tavares, o tempo está contra nós. Perceber o que aconteceu é simultaneamente muito complexo e extraordinariamente urgente.
Para a esquerda, porque tem outras eleições à porta e uma revisão constitucional a combater.
E para a sociedade, porque este ressentimento contra o eleitorado do Chega é tão útil para a coesão social e para a construção de causas comuns como o seu ressentimento contra a esquerda urbana.
Se me leram até aqui, obrigada pela companhia - acho que tentar digerir estes resultados por escrito é a melhor coisa que fiz pela minha saúde mental de flor de estufa esta semana.
Outras pessoas a escrever sobre pantufas, não sei se também compram as delas no Lidl, cheira-me que é gente mais sofisticada
Este texto foi escrito no âmbito de um coletivo de escrita que junta algumas das minhas pessoas favoritas da internet a escrever sobre o mesmo tema todas as semanas. Obrigada pela vossa tolerância com a minha ligeiríssima fuga ao tema. Para a semana, prometo fazer melhor.
Entretanto, podem ler mais sobre pantufas por aqui:
A Curva
A Gata Christie - Pantufas
Dois Dedos de Conversa
Gralha dixit - Pantufas
O blog azul turquesa
Panados e Arroz de Tomate - Pantufas
Quinta da Cruz de Pedra
Para a minha tese de mestrado, estudei alguns destes processos de substuituição da clivagem central (não juro que se diga assim em português), especificamente nos países da Europa de Leste. Discutia-se a passagem de um cleavage esquerda / direita, com uma direita ultra-liberal excitadíssima com a economia de mercado e uma esquerda preocupada com a desigualdade crescente e, nalguns casos, ainda ligada às elites da antiga União Soviética, para uma variação de pró-Rússia vs. pró-pátria ou pró-Rússia vs. pró-Europa. Ambos em parte criados de forma completamente artificial e propositada, e com efeitos perniciosos, acrescentaria eu. (Que saudades desses tempos!)



temos o mesmo gosto em pantufas!