manda-me um postal ilustrado, ou então logo quatro ou cinco
Bilhetes postais à boleia do #largo. Inclui vírus da creche, uma ameaça antiga mas muito atual, embirrações gratuitas, uma ode aos domingos e um prompt eficaz para escrever obituários à Paulo Rangel.
Queridos futuros pais,
Quando vi este cartoon da Michelle Rial no Cup of Jo, pensei logo enviá-lo a todos os futuros pais.
Sabiam que o número de doenças que vocês conhecem vai crescer de forma radical quando puserem os vossos futuros bebés numa creche?
Já ouviram falar do exantema súbito, ou de pés, mãos e boca? Não dos pés, das mãos e da boca, mas da doença pés-mãos-e-boca?
Sabiam que há otites que se pegam, como se já não chegassem as normais?
Imaginam-se a observar o cocó dos vossos filhos com atenção, à procura de organismos vivos? Sabem quantas vezes se pode apanhar conjuntivite no período de um ano, quais os seus diferentes tipos e vias de contágio?
E, numa entrada direta para o podium nestas duas últimas semanas, já ouviram falar dos adenovírus, uns bichinhos encantadores que se fazem acompanhar de um cartão do bingo com todos os sintomas conhecidos?
É um encanto, lá em casa já causou três baixas.
Desejo-vos muita saúde e um sistema imunitário forte!
Vale tudo a pena quando a alma não é pequena, já sabem.
E eles depois ficam muito divertidos1.
Rita
Queridos portugueses desmemoriados,
Quando morava em Alfama, passava muitas vezes numa pastelaria da Baixa que se destacava pelos seus flat whites matcha brownies CBD cartazes originais.
Este aqui é um belo retrato de Portugal nos tempos da crise, não acham?
Depois não me venham dizer que não se lembram.
Abraça-vos, sem saudades nenhumas,
Esta sempre vossa,
Rita Maria
Queridos amigos que também apreciam o absurdo da vida,
Este postal é para vocês.
Nos últimos tempos, o absurdo tem-nos surgido repetidamente na sua pior forma, inspirando tristeza e revolta, em vez de surpresa e riso.
Mas os obituários do Ministério dos Negócios Estrangeiros estão cá para nos animar, mesmo que para isso seja preciso convocar o auxílio da inteligência artificial:
”O Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel lamenta profundamente a morte de António Lobo Antunes, vulto maior da literatura portuguesa. Como poucos revelou as vísceras da alma e as sinopses do corpo. Uma lucidez distante que não é desdém mas desapego. Um enorme embaixador da língua portuguesa.”
”Habermas é a voz da democracia como espaço dialógico, da “razão” europeia-europeísta, do repto da esfera comunicacional ao mundo de hoje. Quem o leu pela mão de Baptista Machado, Barbosa de Melo e Canotilho ou no diálogo com Ratzinger evoca tempos de formação e de heurística.” 2
Se calhar era melhor fazer nos obituários o mesmo que fazemos na política externa, esperar que a Europa falasse e depois copiar, porventura batendo um bocadinho no peito para compensar o atraso. A UE tem muitos defeitos, mas deve pagar a conta premium do Chat GPT.
Por outro lado, depois íamos rir do quê?
Beijinhos, abraços e que não vos faltem motivos para rir,
Rita
PS: Se estes obituários não vos chegaram, e eu compreendo porque os dias estão negros, recomendo sempre o Outono em Pequim a todos os amantes do absurdo que precisem de umas gargalhadas.
Querida senhora com quem eu embirro profundamente,
(Esperem! Antes do postal, um parêntesis:
Se vos pedisse que formulassem de forma abstrata as regras de etiqueta para a reação a uma self-deprecating joke, talvez sentissem algumas dificuldades. É a parte chata do imperativo categórico, assim a frio nem sempre chegamos lá. Mas imaginem a seguinte situação - os temas foram substituídos para preservar a identidade dos envolvidos:
Rita Maria (RM): Ai, sou tão parva, ponho sempre os pés na poça.
Senhora com quem eu embirro profundamente (SCQEEP): Ai, eu não, tenho sempre muito cuidado para ver onde ando, sou muito cuidadosa, especialmente com chuva3.
Percebem, não é? Pois que foi isto que sucedeu, sobre um assunto completamente corriqueiro e sem importância, levando-me automaticamente a embirrar com esta senhora para todo o sempre e a descobrir diversos fatores coadjuvantes para a embirração de cada vez que passo por ela. Só que a negatividade faz úlceras e assim, daí este postal. Retomando, fim de parêntesis)
Querida senhora com quem eu embirro profundamente,
Estás perdoada. Tu e não saberes reagir a piadinhas e o teu riso irritante e a forma como te vestes e o facto simples de existires e te atravessares no meu caminho.
Esta embirração está tentativamente cancelada.
Agora não respondas, que ainda estragas tudo.
Muitos cumprimentos,
RM
Queridas leitoras, queridos leitores,
As minhas filhas estragaram recentemente um postal que tinha guardado desde os tempos de Berlim, provavelmente proveniente daqueles expositores de postais que dantes havia nas discotecas e clubes noturnos4. Era um postal muito simples, igual ao da imagem, com uma lista de ‘coisas bonitas de domingo’:
Organizar a coleção de BD. Dormir até não poder mais. Ver o sol através dos vitrais de uma igreja. Tomar o pequeno-almoço em conjunto, sem ninguém ter pressa. Ver Tatort (uma série policial que dá aos domingos na Alemanha há várias décadas). Passear por um cemitério. Viajar de manhã num elétrico vazio. Flores vermelhas no altar. Comer bolo com creme sem culpa (cof,cof). Ter tempo para se aborrecer. Sentir o cheiro do incenso. Ver montras sem gastar dinheiro (as lojas estão fechadas ao domingo na Alemanha). Vestir-se bem e ir à matiné de uma casa de concertos. Ser uma condutora de domingo.
É uma lista muito alemã e que tenta por três vezes mandar-nos à missa, é certo.
Também desconfio que não foi escrita por alguém com filhos pequenos.
Mas o sentimento é mais importante que os itens individuais. Depois desta semana horrível, dois dias inteiros de sonntagsschön é o que vos desejo a todos para este fim de semana.
A vocês, a mim e às meninas do Largo, que hoje escrevem bilhetes postais:
Dois dedos de conversa
A Curva
A Gata Christie
Gralha dixit
O blog azul turquesa
Quinta da Cruz de Pedra
Por graça, pedi ao Chat GPT ajuda para criar um prompt que levasse a um comunicado destes e ele respondeu assim:
”Redige uma nota de pesar institucional, em português europeu, com o registo discursivo de um comunicado diplomático português.
O texto deve:
combinar linguagem política e filosófica
usar conceitos abstratos (ex: democracia, razão, esfera pública, memória, formação)
sugerir referências culturais ou académicas sem explicação extensa
manter um tom de sobriedade intelectual, evitando adjetivação banal
soar a síntese interpretativa da obra e influência do homenageado
Extensão: 3–5 frases.
Pessoa: [nome + contexto].”
Testei o prompt imaginando o desaparecimento de Dan Brown (peço desculpa desde já aos seus fãs) e pareceu-me excelente:
“O desaparecimento de Dan Brown convoca a memória de uma escrita que soube explorar, com rara eficácia, a interseção entre narrativa, simbologia e inquietação contemporânea. A sua obra projetou para o espaço público global um diálogo persistente entre fé, ciência e poder, transformando o thriller em instrumento de questionamento cultural. Nesse gesto, deu forma a uma gramática acessível da dúvida, onde o enigma se torna método e a revelação, dispositivo narrativo. Para muitos leitores, ficará associado a um tempo em que o livro reentrou no centro da conversação coletiva, como artefacto de curiosidade e de interpretação.”
Se quiserem ler mais histórias de embirrações, nem todas gratuitas, recomendo este post. Se gostarem de Nova Iorque, recomendo a newsletter inteira.
Ainda há? Tentei consultar a minha memória, mas não sei há quantos milhares de anos não vou nem a um bar nem a um clube noturno.







Nem me fales dos piolhos. Só não ultrapassa o adenovírus porque é mesmo um vírus horrível.
li "pés, mãos e boca" e senti logo um arrepio na espinha. Nunca tinha ouvido falar de tal coisa até a minha filha a apanhar. Todo o primeiro ano de creche foi aventura, ela vinha para a casa a cada 2 semanas com uma virose diferente, ficava 1 dia de cama, e eu ficava 3 🙃