Deslarguem-me - breve manifesto pelo direito a estar cinco minutos sozinha às segundas, quartas e sextas
Inclui ainda informações sobre onde comprar o melhor caramelo do mundo
Aqui há uns dias, tive o seguinte diálogo com a minha filha mais velha, que acho que já tinha partilhado aqui:
- Que estás aí a fazer mãe, estás a precisar de estar sozinha?
- Sim.
- Eu também, vou-me deitar aqui ao teu lado.
Entre chorar e rir, ri-me.
Mas foi porque estava com as reservas ainda longe do fim. Não me tinha acontecido nada de grave nem estava chateada com nada nem ninguém, estava só a precisar de existir. De existir sozinha, como pessoa. De ser dona do meu corpo. De conseguir formular e ouvir os meus pensamentos, o que nem sempre é fácil, quando juntamos três crianças num apartamento de 90 m².
Pensei nisto de novo ao ler esta reflexão imprescindível da Lídia sobre esta vivência, que assumimos todas como se fosse uma evidência, da maternidade como submissão, abnegação, subalternização.
Da maternidade como o apagamento mais celebrado da sociedade contemporânea - o funeral da pessoa que éramos, a ressurreição enquanto mães e o casamento verdadeiramente eterno com os nossos fihos, doravante sentido da nossa vida.
Não me entendam mal, não entrei na maternidade a pensar encher a minha vida de sentido - embora “ter muitos filhos” tenha sido o meu objectivo de vida mais constante desde que, aos 13 anos, nasceu a minha irmã do meio, seguida aos 17 e aos 20 pelos meus irmãos mais novos. Gostava muito irmão que já tinha, claro, mas a chegada duma nova criança nesta idade fez toda a diferença.
A vertigem do amor maternal transformou-me para sempre.
Mas não mudou a pessoa que eu era e uma das características mais marcadas da pessoa que era, e sou, é a necessidade de estar sozinha. E o prazer em estar sozinha.
Não me levem a mal, gosto muito da vossa companhia, mas e a minha?
Imbatível.
Adoro a minha família e as minhas filhas. Gosto muito do que faço. Mas sinto-me permanentemente puxada em todas as direções. Dou por mim a roubar momentos sozinha a coberto do silêncio da noite, como se fosse uma espécie de assaltante de casas - vai muito para além da revenge bedtime procrastination, é toda uma agenda que inclui tomar banho de madrugada, escolher um leitor de ebooks com botões porque é melhor para ler enquanto amamento, agendar trabalho para uma insónia previsível ou escrever no Substack antes do despertador tocar.
Não tenho dúvidas de que me faz mal não ter tempo para existir sozinha. Para ouvir os meus pensamentos. Para ir à casa de banho sem companhia. Para ler duas páginas seguidas sem interrupções. Para ser dona do meu corpo um dia inteiro, sem maminha, sem colo, sem abraços (tudo coisas tão boas!). Para reclamar uma manhã inteira para mim.
É isto o impacto negativo da maternidade na felicidade de que os estudos falam?
E se for isto, a maternidade é o problema?
E se não for?
Como seria a maternidade se a sociedade reconhecesse que neste trabalho de ser mãe, por mais que gostemos dele (e dos “colegas”?, “clientes”?, “chefes”?) precisamos de pausas? De horas de almoço? De dias de férias?
A mim, acho que é isto que me falha.
Não é amar desta maneira.
Nem ser responsável desta maneira, nem preocupar-me desta maneira.
Nem enternecer-me desta maneira.
Nem rir até às lágrimas, como ri este fim de semana.
É o facto de a maternidade tomar, com uma voracidade superior até ao trabalho, cada minuto anteriormente livre da nossa vida, do nosso pensamento, da nossa liberdade. E estar constantemente a tentar esticar-se mais, tomar ainda mais - e justamente, atenção, passamos quase todos demasiado pouco tempo com os nossos filhos.
A analogia com o trabalho é importante porque o que falha é o mesmo - experimentem ler este texto do Pagomes e substituir o trabalho pela maternidade:
“E o que sobra de ti nisto tudo? (…)
A sociedade ensinou-te a confundir o teu valor com a tua utilidade. Reduziu-te a função. Mas tu não nasceste para servir (…). Nasceste para ser. Para estar no mundo com sentido. Para criar, sentir, partilhar, contemplar, mesmo que isso não produza nada. (…)
Heidegger falava do “esquecimento do Ser”, esse estado onde a existência é substituída pela função. Onde se vive em modo automático, sempre orientado para um fim, mas sem perguntar o porquê. A nossa cultura vive nesse esquecimento. (…)
Porque a verdade é simples: o nosso propósito de vida não é “ter uma carreira”. É ter uma existência. Com corpo, com voz, com laços, com sentido. “
Está tudo aqui: “o esquecimento do Ser”.
Discute-se o equilíbrio entre o trabalho e a família como se bastasse conseguir conciliar os dois. Mas não basta!
Precisamos de conciliar o trabalho e a família com a nossa existência individual.
E quem diz individual diz cultural, política, económica, sexual, afectiva.
Precisamos de ser mães, trabalhadoras e gente.
E se o dia não chega para isso tudo, então temos de redistribuir as horas do dia1.
Nesta newsletter volta a haver coisinhas pequeninas!
Primeiro, três apontamentos sobre coisas maravilhosas:
A banda sonora desta newsletter, claro, é Lisbon Revisited, o meu poema favorito do Álvaro de Campos, que também é o meu heterónimo favorito. Recomendo que o leiam como se o estivessem a declamar. Ou, melhor ainda, que o declamem mesmo. Na sala, nos transportes, no duche2.
Nunca declamei nada (o mais próximo a que cheguei foi ler em voz alta a Poesia Erótica e Satírica de Bocage pela rua, para envergonhar o meu irmão mais novo). Mas este poema foi feito para ser dito em voz alta.Este ano, levámos finalmente as miúdas a um arraial, com direito a sardinhas, bifanas, farturas e um mangerico que ainda está vivo. Entre isso e o artigo da Susana Peralta, fiquei novamente cheia de saudades de viver em Alfama. A semana de Santo António era terrível, mas as primeiras duas semanas de Santos Populares, que em Alfama duram o mês todo, eram maravilhosas. Tenho de marcar na agenda do ano que vem, entre os dias 1 e 9 de junho.
Na última semana li I Capture the Castle, um pequeno livro escrito em 1948 pela Dodie Smith, a senhora que escreveu os 101 Dálmatas. É uma espécie de cruzamento entre Orgulho e Preconceito e Os Cinco na Ilha do Tesouro e tem uma protagonista deliciosa, que vai crescendo ao longo das páginas perante os nossos olhos. Não vai mudar a vossa vida, mas recomendo sem hesitar tanto o livro como esta edição.
Ainda sobre leituras, tenho estado a cumprir a minha promessa de atacar a coleção de BD que mora lá em casa e li O Homem que Passeia, sobre um homem japonês que sai de casa e passeia, regularmente, sem destino marcado. Acho que esta imagem resume o livro na perfeição:
Mas esta BD está cheia de pequenas pérolas para quem as quiser encontrar. A certa altura, num dos seus passeios, o protagonista parte os óculos, um revés que também marcou as minhas últimas semanas. Talvez por isso, fui muito sensível ao génio desta imagem míope, com vultos sem rosto e uma paisagem desfocada:
Esta semana, falhei ao tema “Caramelo” do nosso colectivo de escrita: tinha planeado fazer caramelo para uma tarte Banoffee e escrever sobre isso, mas saiu tudo furado.
Primeiro, a Gralha publicou a receita de caramelo antes de mim, que o faço praticamente da mesma maneira. Depois fiz caramelo, mas ficou demasiado escuro, e eu prefiro-o menos intenso. E por fim, depois quando fiz outro que me satisfez e consegui, também só à segunda tentativa, que as natas ficassem batidas, descobri que não gosto assim tanto de tarte Banoffee.
Mas nem por isso devem perder os links para os textos das minhas colegas: podem aprender a fazer caramelo com a Gralha Dixit, ler A Gata Christie sobre os incontornáveis caramelos espanhóis, emocionar-se com uma Maputo cor de caramelo na Curva, descobrir Caramelo, o filme, nos Panados e Arroz de Tomate e, por fim, ler sobre todos estes caramelos e outros ainda no blog azul turquesa.No meio disto tudo, reparei que ficou de fora o meu caramelo favorito: o fudge inglês. Descobri-o quando me mudei para Inglaterra, logo num dos primeiros dias, numa lojinha amorosa no centro de Bath e corri logo para os correios para enviar uma fatia à minha mãe.
Se nunca comeram fudge, olhem com atenção para a imagem, que roubei aqui e imaginem que é um rebuçado daqueles de caramelo muito molinhos, mas com o tamanho e a grossura aproximada de uma fatia de salame de chocolate e o peso um bocadinho superior.
A seguir, imaginem que se desfaz na vossa boca, como se estivesse estado ali só à vossa espera e tivesse encontrado na temperatura da vossa língua o match perfeito. E que tem um sabor a Butterscotch marcado e intenso mas suave como veludo, sem excessos e sem sal (a tomada completa do mundo do caramelo pelos franceses e pelo seu caramel au beurre salé só se daria vários anos depois).
Ainda hoje é uma das experiências sensoriais mais marcantes da minha vida.
E agora, outros três apontamentos pequeninos sobre pequenas e grandes cretinices:
O Governo quer limitar o reagrupamento familiar (link 🎁), com duas exceções: os vistos gold e os trabalhadores altamente qualificados3. Se forem ricos, os vossos filhos são bem vindos, no questions asked.
Sabemos que o privilégio é como o capital - tende a multiplicar-se, a concentrar-se, a acumular. Mas é preciso uma dose grande de cinismo para o escrever assim, com tanta transparência, ou é de mim?
Por falar na concentração de capitais, um número que diz tudo sobre a utilização de empresas familiares ou unipessoais para fugir aos impostos: as despesas destas empresas aumentam em média 9,8% no mês de aniversário do seu dono. Vale muito a pena ler o artigo inteiro.
Por fim: por estes dias, metade das minhas chamadas de números que não reconheço são falsas. As vossas também?
Sabia que esta era uma indústria internacional multimilionária e que estava em crescimento, mas não fazia ideia nenhuma de que grande parte dela é alimentada por trabalho escravo, em muitos casos pessoas aliciadas para empregos na China ou na Tailândia e traficadas por redes de crime organizado para outros países, especialmente para o Myanmar, o Laos e o Camboja.
Descobri originalmente através deste artigo do seminário alemão Die Zeit (link 🎁), mas podem ler sobre o assunto em inglês aqui e aqui ou ver este resumo da Deutsche Welle aqui. Este artigo de fundo da Reuters detalha uma desses redes, neste caso com o objectivo de aliciar investidores para investimentos em criptomoeda.
Muito obrigado, Rita Maria, estava mesmo a precisar de perder a esperança na humanidade por motivos novos. Olha lá, e então e esta newsletter agora é à terça? Por algum motivo especial?
Olhem, não, na semana passada os serões falharam-me, só consegui escrever no fim de semana e, vai não vai, decidi publicar hoje em vez de deixar para quinta. Como escrevo quase sempre no nosso colectivo de escrita às sextas-feiras, achei que era boa ideia espaçar mais as newsletters, para falhar menos e não testar a paciência dos meus leitores dois dias seguidos.
Já sei, já sei, chego sempre à mesma conclusão - também me apercebi, mas já era demasiado tarde.
Se não conseguimos tomar banho sem audiência, podemos aproveitar para cultivar as crianças ;)
Os trabalhadores altamente qualificados não eram o nosso principal produto de exportação? Agora queremos importá-los do estrangeiro? E vamos passar a pagar-lhes adequadamente?






Uma das razoes porque sempre achei que ia ser mae mas nao me importo nada de nao ser: adoro estar sozinha haha (e ainda bem que no teu caso, é possivel conciliar :D)
Muito bonitas, estas notas, Rita! E acertadas. Apesar de não tendo sido mãe, e consciente da enorme diferença mesmo tentando ser solidário nas tarefas e papéis, apeteceu-me dizer "been there, done that!". 3 filhos em 90m2, os dois a trabalhar, e sem nannnies, mulheres-a-dias etc. Agora, já vivendo bastos anos sem essa solicitação permanente, posso dizer-te que as coisas vão relaxar. Eu tive mesmo a sorte de ter tempo, também aliviado de parte das solicitações profissionais pela pandemia, de reencontrar-me e fazer muito do que preciso e gosto de fazer à minha maneira e meu ritmo. Quer dizer: há esperança ainda!
Outra nota: "Lisbon revisited" também é meu poema da vida! Encontrei-o aos 21 anos, sem saber uma palavra em português, no "Museu da poesia moderna" de Enzensberger. Surpreendeu-me encontra-lo também como teu preferido, pois, convenhamos, ele é bastante sombrio. Não é? E não tinha associado esse estado de espírito existencial contigo. Mas as aparências iludam. Um grande abraço!