b-a-bá do palavrão para donzelas revoltadas
#Fúrias
Embora goste de dizer que sou uma rapariga da aldeia, o que sou realmente é uma burguesinha da vila, filha da sua mãe, neta do seu avô.
A melhor forma de o descobrirem é a minha dificuldade em dizer palavrões. Consigo dizer os de nível fácil, aqueles palavrões para principiantes, e também palavrões em estrangeiro, especialmente em inglês. Mas se me derem um palavrão mais cabeludo e por algum motivo tiver realmente de o dizer, tenho de fazer um esforço, modular a palavra na boca e empurrá-la para fora de forma a não ficar encravada.
Pareço um gato a cuspir uma bolinha de pelo.
Sempre fui assim, mas não ininterruptamente: quando Passos Coelho e Paulo Portas subiram ao poder, as fúrias acometeram-me pela primeira vez e, de repente, conseguia dizer os palavrões todos. Foi como se me tivesse sido desbloqueado um idioma novo, numa versão carroceira do milagre de Pentecostes. Não havia nem um que não conseguisse dizer de forma articulada e natural, a falar de mim para comigo, montada na minha bicicleta Berlim acima e Berlim abaixo. Ninguém me ouvia, mas o essencial estava lá.
(sim, também não é para começarem a pensar que me pus a dizer palavrões a outras pessoas, não exagerem)
Desde então já tive motivos de sobra para ficar furiosa com a política nacional e internacional mas, talvez por já não andar de bicicleta e não ter muitas oportunidades de falar sozinha, ainda não me tinha dado para aí.
Sinto, no entanto, que os ventos estão a mudar.
Tudo começou com uma história tenebrosa que se conta rapidamente: a irmã de uma amiga, uma senhora que deve ter cerca de sessenta ou setenta anos, foi operada a um cancro e ficou com algumas metástases, que os médicos optaram por vigiar. Só que ela entretanto teve um AVC e ficou internada, em dois hospitais públicos consecutivos durante um período de seis meses. Durante este período, apesar da vigilância também estar a ser feita no SNS e dos avisos da família, ela faltou a todos os exames marcados e a todas as consultas de vigilância oncológica. Foi finalmente agora ao oncologista, depois de sair do hospital. O cancro avançou de forma irreversível.
A desorganização do SNS condenou-a à morte.
(nem são precisos palavrões, pois não?)
Desde então, as notícias sucedem-se em catadupa.
Primeiro, um corte de 10% para o SNS num orçamento de ricos, que se dá ao luxo de baixar os impostos. Mesmo que fosse só uma questão de má comunicação: como é possível que um governo que todos os dias é confrontado com o SNS em crise ouse sequer falar de fazer melhor com menos?
De seguida, os hospitais receberam indicações para cortar na despesa, mesmo que isso signifique abrandar consultas e cirurgias, que ultrapassam nalguns casos já o período de espera máximo considerado razoável pelo próprio Estado. Adicionalmente, os hospitais devem também preparar-se para que 2026 seja um ano de “contratações zero”.
E, por fim, temos as declarações da Ministra da Saúde sobre a morte de Umo Cami e do seu bebé. Que eram mentira, já se sabe, e sobre isso falarei mais tarde.
Mas e se fossem verdade, é isto que temos para oferecer às grávidas que não podem pagar o privado? É isto que espera as mulheres estrangeiras que tenham filhos em Portugal? Ou só as mulheres negras? Ou só as pobres? Qual é a grelha em função da qual as podemos deixar morrer, é só se preencherem todos os requisitos?
Nós temos um problema com gravidezes não acompanhadas no SNS e sei e aceito que impactem a nossa mortalidade materna e infantil. Mas isso não justificada declarações daquela natureza, justifica medidas para tentar resolver a situação. Já a morte de uma grávida e de um bebé que tínhamos a cargo justifica uma atitude respeitosa, consternizada e um telefonema para a família - que, se outras vantagens não tivesse, teria sido o suficiente para a ministra não ter mentido.
Mas, apesar de nos encherem a todos de vergonha, as declarações da ministra têm uma vantagem: ajudam a perceber a mensagem escondida do orçamento do estado. Ao poupar no SNS enquanto reduz os impostos, Montenegro está a dizer-nos: guardem o vosso dinheiro, vão precisar dele. Para recorrer ao privado e, se for caso disso, trocar de telemóvel.
E, de repente, aí estão eles, os palavrões todos: ainda não estão prontos para sair, mas estou tão furiosa que os sinto mesmo debaixo da língua.
As fúrias das outras:
Hoje, o tema do Largo é #Fúrias. Desta vez fui a primeira furiosa, mas não deixem de ir à procura das Fúrias das minhas companheiras de aventura, que motivos é o que não falta:
A Curva
A Gata Christie
Dois Dedos de Conversa
Gralha dixit
O blog azul turquesa
Panados e Arroz de Tomate
Quinta da Cruz de Pedra



As declarações da sra. ministra no parlamento, são de uma tamanha desfaçatez, que nos envergonha a todos.
Quando temos constantemente, mais nascimentos em ambulâncias, seria justo perguntar à sra. ministra se elas "as ambulâncias" são as novas Maternidades, ou se os bombeiros passaram a ter o estatuto de parteiros/as?
Dizer que os utentes enchem as urgências e não reconhecer que há milhares de pessoas não têm um médico de família na sua região é de uma absurda incompetência.
Palavrões não chegam para adjectivar a incompetência deste ministério e do sr. primeiro ministro que em campanha dizia que ia resolver o problema em seis meses.
Cambada de aldrabões.
Não tenho sequer palavras mas eu cá tenho grande relação com palavrões (para espanto de praticamente todas as pessoas que me conhecem pela primeira vez), então posso dizê-los e escrevê-los todos por ti: puta que pariu, grandes filhos de um cabrão, que isto vai de mal a pior, foda-se caralho para este governo!!! É mais ou menos isto que penso dia sim dia não, infelizmente 🫠