a morte da imaginação e outras embirrações
ainda a vergonha, a raiva e a tristeza, mas desta vez com direito a uma pausa para respirar com um poema bonito, uma casa para onde me mudava sem pestanejar e conselhos não solicitados de puericultura
Houve um episódio do Opinionistas, já não sei qual, que me pôs a ouvir o Eixo do Mal. Logo eu… não ouvir programas deste tipo, a par de não ver notícias na televisão há mais de uma década, era um dos truques para evitar úlceras no estômago e ter poucos cabelos brancos1.
Não é que não goste de ouvir ideias opostas às minhas, acho muito importante ouvir e ler opiniões diferentes das minhas – é essencial para mudar de opinião quando não tenho razão, o que felizmente continua a acontecer com alguma frequência.
Mas esta semana, fiquei ali encravada nas afirmações da Clara Ferreira Alves sobre as demolições de Loures, e quero partilhar convosco a minha indignação o meu nojo o meu bloqueio:
Aquelas pessoas tinham de ser desalojadas porque “não temos dinheiro para fazer casas para toda a gente”.
Não sei se temos ou não temos dinheiro para fazer casas para toda a gente. Temos tido dinheiro para coisas extraordinárias no meu tempo de vida e agora, aparentemente, até temos dinheiro para aumentar a percentagem do PIB que gastamos em Defesa, indo dos 2% previstos aos 5%. Não sei se a magia orçamental que se aplica a bancos privados ou mísseis não se podia aplicar à habitação. Alguém mais bem informado que eu poderá certamente fazer as contas.Mas o que me irrita nesta frase não é isso. É a forma como o fim da história, o “there is no alternative” de Margaret Tatcher se conseguiu entranhar no discurso e pensamento públicos, a forma como nos tolheu a imaginação.
Mais, a forma como tolheu a imaginação até das pessoas cultas, lidas e cosmopolitas que insistem em lembrar-nos a todo o momento que são lidas, cultas e cosmopolitas.
Quando a Constituição inscreve na ordem legal o direito à habitação, isso quer dizer que temos de fazer casas para todas as pessoas?
Não, porque quando foi escrita, não se previa ainda que a morte da imaginação ia transformar o Estado num fornecedor centralizado de remendos.Ainda se imaginava que, para além da construção pública, que não tem porque ser limitada à habitação social, o Estado podia intervir no mercado, por exemplo, regulando-o (oh! ah!) e fiscalizando-o (oh! ah!).
Que podia intervir na economia, por exempo, definindo prioridades, linhas estratégicas e planos que as concretizassem (oh! ah!).
Um país não é uma espécie de sucursal local do capitalismo.
A economia não nos acontece.
Não somos um grupo isolado de espectadores neutros dos mercados, cujo único argumento é o poder de compra.
Somos cidadãos e não só consumidores.Os preços da habitação estão inacessíveis à maioria da população porque nós, colectivamente, por ação ou inação, permitimos. E continuamos a permitir.
Aquelas habitações provisórias tinham de ser demolidas porque eram ilegais.
Clara Ferreira Alves também está, naturalmente, preocupada com as construções ilegais. Também eu, também eu - ninguém defende que existam pessoas a dormir em barracas. Mas é estranho que não a incomode nada nem que não cumpramos a Constituição, nem que construções ilegais sejam demolidas de forma também ela ilegal.
Clara Ferreira Alves parece pertencer àquela estirpe específica de elististas à qual só incomoda a ilegalidade quando cometida por pobres. Ou, se calhar, no seu caso específico, por pessoas que nunca leram Houellebecq2.
É que, efetivamente, é ilegal despejar pessoas administrativamente, por despacho, sem ordem do tribunal, nem garantia prévia de alternativa.É por isso que era evidente que a providência cautelar dos moradores era inevitável e seria bem-sucedida. E foi por isso que a Câmara Municipal de Loures informou da demolição atravé de um edital, com um prazo de 48 horas, afixado sexta-feira ao fim da tarde.
Sabendo que haveria uma providência cautelar, mas que ela nunca poderia surgir antes de segunda-feira de manhã. E que, com sorte, mesmo depois da decisão chegar, ainda conseguiam demolir a casa de mais quatro famílias enquanto a analisavam, porque isto é gente que lê devagarinho e demole rápido.
Para Clara Ferreira Alves, esta ilegalidade não é suficiente para criticar Ricardo Leão, que é simplesmente um autarca corajoso que tomou uma decisão difícil.
À sexta-feira.
(outros há que sexta-feira a partir da hora de almoço já nem fazem nenhum, que mais é que queres, Rita Maria?)
Combinado com o colega da Amadora.
(pois, então não querias planeamento?)
Em campanha eleitoral.
(não sejas tola, isso é só em setembro)E os sem-abrigo, e os sem-abrigo? Ah, pois, desses é que ninguém quer saber.
Nunca, em 43 anos de vida, conheci uma medida de apoio aos sem-abrigo iniciada por uma das pessoas que gosta de dizer “e os sem-abrigo?”.
“E os sem-abrigo” é uma frase que serve de resposta quando outra pessoa propõe ajudar alguém que preferíamos que não fosse ajudado. Por exemplo, receber refugiados da Síria ou meninas do Afeganistão – e os sem-abrigo? Realojar pessoas que moram em barracas – e os sem-abrigo?
Só porque construíram uma barraca, estas pessoas devem passar à frente dos sem-abrigo de Lisboa?
(E, especialmente, dos sem-abrigo da estação de metro da Madeleine, em Paris, que foram postos fora mas já voltaram? Esta gente realmente é um problema que não tem fim, uma pessoa nem pode ir à Mariage Frères comprar um chá com o olfacto impoluto)
Naturalmente, para surpresa de exactamente ninguém, a melhor solução para os sem-abrigo também é uma casa. (ah! oh!)
E enquanto não temos essas casas, porque falhámos ao longo de mais de dez anos e escolhemos deixar este problema continuar a crescer, o que fazemos?
Ajudamos todas essas pessoas, de todas as formas que estiverem ao nosso alcance, em vez de lhes dificultar a vida de propósito.
Abstemo-nos de as difamar, criminalizar, desumanizar e culpabilizar.
E protegemos, com especial empenho, aquelas que de entre elas precisam de maior proteção - as crianças que andam agora à procura dos seus brinquedos por entre os escombros.
Não, não era preciso Ricardo Leão passá-las à frente das 1000 pessoas que tem em lista de espera, nem oferecer-se para lhes pagar primeiras rendas a preços que não existem no seu concelho, nem quartos em pensões em Beja.
No limite, se não tinha solução, podia tê-las simplesmente deixado estar, até já ter. Exactamente como a lei prevê.
É agora, é agora?
Não acredito que voltam a haver coisas pequeninas esta semana!
Acreditem, acreditem, qualquer dia até retomo o nosso coletivo de escrita:
Tenho as maiores dúvidas sobre a utilização de drones de guerra, seja onde for ou por quem for. Quando matamos o inimigo à distância, sem por em risco as nossas próprias pessoas, o que sobra para nos impedir de manter focos de conflito acesos eternamente, de preferência em partes longínquas do mundo?
As nossas boas intenções?
(piadinha)
O Direito Internacional?
(estou muito engraçada hoje)
Os direitos humanos? Os valores iluministas?
(desculpem, isto fica difícil uma pessoa parar)
Mas, no meio disto tudo, nunca tinha realmente visto um drone de guerra. Imaginava-os assim, enfim, talvez um pouco maiores. Mas de facto, são assim. Grandes aviões sem olhos - uma metáfora violentíssima.
Uma pausa na vergonha de ser portuguesa: Portugal entre os 25 signatários desta declaração.
(e a União Europeia, continua sem existir? Sim e não - esta declaração foi assinada pela Comissária Europeia para a Igualdade, Preparação e Gestão de Crises e por vinte países da União Europeia, mas sete escolheram ficar de fora)
(Um update: entretanto, Ursula van der Leyen rompeu o silêncio)Um poema maravilhoso encontrado na Livraria Aberta, para nos deixarmos de tristezas, respirar fundo e arejar as ideias:
Avó! não me varras os pés, que não me caso!
(procedam com cautela, que eu varri os pés a tentar o destino e efectivamente não me casei)Meu Deus, as minhas filhas estão tão crescidas que a geração da minha filha mais velha já tem nome (via Espiral).
Quão maravilhosa é esta sala? E a cozinha? E o jardim? (descoberta via Big Salad, mas o link original está inativo)
Uma cidade irritantemente fixe: claro que existe um mapa de todos os sítios onde podem apanhar amoras ou outras frutas silvestres em Berlim (via 20 Percent Berlin)
E por fim, para não dizerem que nesta newsletter não se aprende nada de útil #6
Um truque para cortar as unhas a bebés e crianças pequenas: começar pelo dedo mindinho. Mesmo quando vêm de boa vontade, as crianças costumam ficar irrequietas ao fim de alguns segundos, quando se apercebem de que estávamos realmente a pensar sujeitá-las àquela tortura chinesa durante vários minutos em que podiam estar a descobrir o mundo ou a desenrolar o papel higiénico. Quando começam a puxar, é muito melhor estarmos a agarrar um anelar do que um mindinho.
Estou a brincar, o verdadeiro truque é ter poucos cabelos no geral.
(Estou a brincar, acho que em ambos os casos, a culpada é a genética.)
Que, se querem que vos diga, acho um autor muito sobrevalorizado. Mas isso sou eu, que não aguento ver alguém ser snob sem tentar ser mais snob um bocadinho.




Não consigo ler ou ouvir a Clara ou a Varela. O pedantismo é tanto, a falta de noção tão gritante, que só me apetece chorar.
Obrigado pelo texto. É tudo isso.
Magnífico, Rita! Eu também a ouvi e fiquei horrorizada com o horror que ela sente dos pobres. A solução era mesmo deixá-los ficar até se encontrar solução! Não páro de pensar no caderno da escola que filmaram entre os escombros das barracas 😔